
Show Notes
a religião pertence ao campo das ilusões? a fé é um mecanismo de alienação psíquica? na psicanálise, Freud não diz que Deus não existe, mas nos convida a pensar em como a religião é uma espécie de neurose coletiva — uma doutrina que pode nos guiar e orientar em direção à transcendência e espiritualidade… ou nos aprisionar em um modelo de controle social ou mesmo em uma mentalidade de seita; até porque toda religião sempre envolve um exercício de poder. para complicar, os períodos de grandes incertezas e instabilidade são conhecidos pelo aumento do apelo às religiões, ainda mais no Brasil, onde 90% da população (Ipsos) acredita que Deus ajuda a superar crises. esse é um pacto coletivo que assegura nossa inserção na cultura e na civilização, e que tenta proteger o ser humano do desamparo existencial. ao mesmo tempo, sabemos que a religião também pode servir justamente para fazer uso e tirar aproveitar do nosso desamparo. aí realmente… é aquele Deus nos acuda.
* para expandir a nossa escuta sobre esse tema, convidamos a economista e ativista Alessandra Orofino do podcast Calma Urgente e o psicanalista e professor no Instituto de Psicologia da USP, Gabriel Binkowski.
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pesquisa, roteiro e apresentação: André Alves e Lucas Liedke produção: Fernanda Ogasawara edição e montagem: Jessica Correa arte: Gustavo Jácome
refs. O Futuro de uma Ilusão — Freud Religião e psicanálise - Gabriel Binkowski, Edin Abumanssur, Eduardo Silva (Orgs) A fé e o fuzil: Crime e religião no Brasil do século XXI — Bruno Paes Manso
More from vibes em análise
uma angústia pode caber num desenho. e o desejo se inscrever em um poema. o luto pode encontrar voz na música a solidão se revelar numa fotografia… e um trauma se desdobrar em “pura ficção”.
você já escutou aquela expressão “quem ama cuida”. mas o que seria exatamente “cuidado” nos dias de hoje? um tempo em que a gente dispõe de tantas ferramentas de controle e de vigilância sobre a vida, especialmente a vida dos outros. supostamente… na melhor das intenções.
“...mas e o Brasil, hein? será que tem jeito?” - a frase é antiga, quase banal, conhecida até demais. ser brasileiro ou brasileira, ao longo da história, sempre foi ter um apetite insaciável por falar mal dos outros brasileiros. segundo o estudo Brasil no Espelho, da Quaest com a Globo, 51% dos brasileiros diz que valoriza o nosso povo; mas um em cada cinco, não valoriza. dá para entender o conflito; afinal, o Brasil oferece, doses cavalares de desespero e esperança, antipatia e empatia, brilho e dor, orgulho e vergonha. em resumo, open de ambivalências. e daí vem 2026, esse ano que nos serve a Copa do Mundo de Futebol da FIFA e as Eleições, eventos que são, tradicionalmente, possibilidades de euforia e de fratura, de celebração e de decepção. acontecimentos que, mais uma vez, nos fazem sentir muito orgulho e muita vergonha nacional. a gente tem assistido a essa turbulenta trama de orgulho e vergonha todos os dias, na vida e na internet. e é nessa dança entre antagonismos que o novo tem emergido. de fato, tem algo diferente no ar. primeiro, porque mesmo diante do tumulto permanente, 85% dos brasileiros sentem orgulho do Brasil (um dado da pesquisa Brasil no Espelho do ano passado). segundo porque, nas últimas décadas, nosso país viveu conquistas que nos fizeram inclusive apostar em uma espécie de superação do viralatismo. e diminuir o nosso profundo temor de ser uma “grande pátria desimportante”, como cantava o Cazuza. é por tudo isso que a gente vem conduzido um estudo chamado ORGULHOS NACIONAIS, uma investigação sobre as novas paixões, ritmos, arquétipos e identificações que têm transformado as percepções, as relações e o consumo dos brasileiros. se uma das frases mais famosas da nossa cultura nos diz “Brasil, mostra a sua cara!”, a nossa pergunta-chave nesse estudo e nesse episódio é: blza, mas qual delas?
o trauma é inassimilável. será que é por isso que as buscas globais por essa palavra no Google triplicaram entre 2015 e 2025? estamos tentando entender melhor o que é trauma… e também o que não é trauma? desde sempre, a noção de trauma criou um campo muito vasto na literatura, na arte, na cultura popular, e hoje, obviamente, na internet. o termo entrou com tudo na gramática do mal-estar contemporâneo, um tempo em que o sofrimento muitas vezes não é só narrado, ele é compartilhado, performado e estilizado. e existe uma vida livre de trauma? possivelmente não. mas será que estamos assim todos tão traumatizados? o conceito se tornou um referencial cultural dominante, uma tentativa de fazer com que a nossa dor seja escutada e levada a sério em um mundo que dá mais valor ao que é certificado por um diagnóstico. só que, quando tudo é rotulado, empacotado e até vendido como trauma, como fazer para distinguir e atravessar as verdadeiras experiências traumáticas?
durante muito tempo, discutimos a tecnoadicção como um fenômeno ligado sobretudo a mídias sociais, videogames e pornografia. mas a lógica da compulsão digital vem se deslocando cada vez mais para outros domínios: as finanças gamificadas e cheias de cashbacks, as apostas e mercados de previsão, os chatbots e interfaces de IA sem os quais se tornou impossível viver, os aplicativos de trading e, para muita gente, o irresistível jogo dos cupons e das compras online. são mundos híbridos entre informação e entretenimento em que parece que a gente está sempre à beira de criar algum tipo de dependência. fissura. abstinência. círculo vicioso. acesso hiperfacilitado. falta de regulação. um sistema de recompensas sequestrado. sacrifícios e perdas em tantas áreas da vida. será que ainda tem como escolher usar… ao invés de simplesmente se sentir usado?.. e não sentir que a sua autonomia individual está sendo colonizada? alguns usuários se excedem mais que outros, mas a verdade é que o excesso está programado no próprio modo de uso. são arquiteturas que transformam as necessidades humanas legítimas em circuitos de engajamento economicamente exploráveis.