
Show Notes
Chegamos no penúltimo episódio (da primeira temporada?) do podcast Feminismo é luta de classes! Nos episódios anteriores, construímos o terreno analítico necessário para, finalmente, entrarmos na análise feminista sobre o nosso tempo presente. Antes de entrar efetivamente no tema deste episódio, vale recuperarmos a nossa linha-guia: partimos da crise climática não como um problema técnico a ser gerenciado pela “economia verde”, mas como expressão de uma crise multidimensional: a crise do Capitaloceno. Escapando da generalização confortável do “antropoceno”, vimos que não foi a humanidade — como um todo indiferenciado — que engendrou a realidade de múltiplas crises que enfrentamos. Foi o patriarcado capitalista como ecologia-mundo, que, desde 1492, passou a organizar as relações entre trabalho, (re)produção e natureza para possibilitar a acumulação infinita de capital. Vimos que a crise do clima é um dos sintomas do esgotamento das Naturezas Baratas — o femitariado, o proletariado e biotariado — que o sistema precisa explorar gratuita e infinitamente para geração de mais-valor. As mulheres sempre estiveram no centro dessa equação: não como vítimas passivas, mas como a classe superexplorada sobre cujos corpos e trabalho o patriarcado capitalista foi erguido. Rastrear as origens históricas dessa condição — da Mesopotâmia à Revolução Científica, da donadecaseficação à colonização — revelou que a hierarquia na divisão sexual do trabalho não é um dado natural, mas um paradigma social para benefício dos homens e sobre o qual se construiu a divisão internacional do trabalho. A violência contra as mulheres como estrutural e estruturante do nosso sistema-mundo Passando por uma ampla variedade de dados — que vão do feminicídio à escravidão moderna, passando pela perda de direitos legais a nível global — vimos que os números não descrevem uma série de tragédias individuais. Descrevem uma guerra de baixa intensidade permanente contra toda a classe sexual feminina. É uma violência estrutural que serve para manter as mulheres subordinadas por meio do medo e da coerção. Ela se intensifica exatamente no momento em que a Grande Fronteira se fecha e as possibilidades de extração de mais-valor do Femitariado diminuem. Portanto, as alterações climáticas não chegam a um terreno neutro — elas aterrissam sobre essa estrutura já existente e potencializam a vulnerabilidade de toda a classe sexual feminina dentro de uma estrutura de classe e raça já desigual. Os dados mostram que desastres climáticos ampliam a violência doméstica e sexual. Deslocamentos forçados colocam mulheres e meninas em situação de vulnerabilidade extrema. As próprias políticas climáticas que priorizam a financeirização da natureza e ignoram as comunidades locais recaem com mais força sobre as mulheres. Para entender por que essa violência persiste e se aprofunda, as explicações economicistas não bastam. Afirmar que as mulheres sofrem violência porque são economicamente dependentes dos homens é insuficiente: não explica a violência contra mulheres economicamente independentes, não explica a dominação masculina pré-capitalista e não enxerga a psicologia patriarcal da guerra de baixa intensidade contra toda a classe sexual feminina. Eu argumento que o nexo natureza-mulher-trabalho está — historicamente — no cerne da questão. As tarefas femininas de gestar, parir, alimentar, cuidar e reproduzir a vida foram classificadas como “atividade natural” e, portanto, excluídas da categoria trabalho. Isso não foi um acidente cultural. Foi uma condição material e histórica necessária para que os Grandes Homens — e, posteriormente, o capitalismo — acumulassem bens, riquezas e poder sem pagar a conta. As mulheres, ao mediarem os processos entre natureza e trabalho para geração de mais-valor, são tratadas como “recurso natural” — não apenas seu trabalho é apropriado, mas seu corpo, sua sexualidade e suas capacidades emocionais também o são. É aqui que entra uma distinção fundamental do ecofemini
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O episódio de hoje é um episódio especial e dá continuidade ao nosso estudo sobre o desenvolvimento da ciência moderna como instrumento do Mestre com um trecho do livro A Diferença Sexual na História, de María-Milagros Rivera Garretas, intitulado “Expressões da diferença de ser homem: a ciência e a técnica” (p. 109-208). Utilizando a vasta pesquisa de David Noble, que demonstra como a ciência foi uma empreitada clerical a partir do século XIII, Milagros argumenta que a ciência moderna se estabeleceu no entre-homens, celibatários e religiosos, excluindo as relações de diferença. Na verdade, como vimos, o verdadeiro objetivo da ciência é dominar a natureza e realizar em si a criação da vida sendo a ciência moderna, portanto, não apenas antimulher, como concluiu David Noble, mas também antimãe, como enfatiza a autora. Este é um dos meus trechos favoritos do livro porque, entre outras coisas, desbanca o mito de que a ciência sempre esteve em oposição à Igreja. Essa é uma mentira histórica que esconde vários fatos, entre eles a adoção da posição antiaborto da Igreja após a ciência concluir que o início da vida se dá na fecundação. Um plot twist que poucas conhecem. Também explica a saga permanente da ciência em suplantar a capacidade exclusiva das mulheres de criar a vida, um desejo masculino por poder e controle que se torna explícito a partir das transformações dos mitos de criação. No episódio, eu comento sobre o Clube de Estudo e Leitura Ecofeminista, o CELECO, no qual leremos, entre outras, a muito mencionada por aqui obra de Carolyn Merchant, A morte da natureza: mulheres, ecologia e a revolução científica. Confira todas as informações aqui. Outras referências citadas: David Noble, A World Without Women: The Christian Clerical Culture of Western Science. Nova York e Oxford: Oxford University Press, 1992. Marguerite Porete, El espejo de las almas simples. Barcelona: Icaria, 1995. [O espelho das Almas Simples e aniquiladas e que permanecem somente na vontade e no desejo do Amor. Petrópolis: Vozes, 2008]. Victor J. Seidler, Rediscovering Masculinity. Reason, Language and Sexuality. Londres: Routledge, 1989. Sobre o podcast: O podcast Feminismo é luta de classes! é uma formação política feminista que objetiva contar a história das mulheres e abordar o feminismo sob uma perspectiva classista, de maneira a promover a consciência sobre a existência e condições materiais da classe sexual feminina para além do sistema capitalista e de forma interconectada com a crise climática e ambiental na qual vivemos. Ao longo dos 10 episódios, eu explico as origens da nossa crise multidimensional — em que os diversos indicadores sobre violência, feminicídio e estupro, saúde mental, direitos legais, equidade econômica, entre outros — revelam uma piora nas condições de vida de mulheres e meninas em todo o mundo. Apenas uma perspectiva materialista histórica nos dá as ferramentas necessárias para compreensão e transformação desse cenário. Nas palavras da ecofeminista Ariel Salleh, “qualquer denominador comum entre a classe trabalhadora, mulheres, indígenas e política ecológica precisa ser uma política materialista”. As referências e o conteúdo completo estão na minha dissertação de mestrado, Crise climática e antropoceno: uma perspectiva ecofeminista para liberar a vida(2023), realizada na PUC-SP com bolsa da CAPES (Código de Financiamento 001 – 88887.608106/2021-00). O podcast Feminismo é luta de classe! foi viabilizado por meio de um financiamento coletivo com apoio de 164 pessoas! Se você não apoiou o financiamento coletivo, mas deseja colaborar agora, apoie o lado b clicando no botão abaixo. Você também pode colaborar, compartilhando o podcast nas redes e com pessoas amigas, e dando 5 estrelas no Spotify. Agradeço imensamente a cada uma e cada um que colaborou no financiamento coletivo com R$ 35 ou mais: Amanda Fernandes, María Agustina Comas, Alain Schraner, Alice Gabriela Santos Freire, Aline Nunes Kroth, Aline Moraes Alencar, Anna Mendes
Neste episódio, mergulhamos em uma análise histórica sobre como a subordinação das mulheres foi construída ao longo dos séculos — e a relação histórica intrínseca entre essa subordinação com a exploração natureza passando por um ponto chave da nossa análise: a Grande Donadecaseficação como contraparte da Grande Proletarização no início do capitalismo. Aqui, encerramos o longo episódio quatro. Vem comigo entender no detalhe como o capitalismo criou o Femitariado. Começando analisando brevemente a segunda raiz de pensamento do mundo ocidental. A ciência e filosofia gregas, que forneceram as bases conceituais para a terceira raiz de pensamento da sociedade ocidental: a ciência moderna. Aristóteles criou a justificativa “filosófica” da inferioridade feminina ao definir mulheres como “matéria passiva” e homens como o “princípio ativo” da criação abrindo caminhos para a futura consolidação do dualismo cartesiano como lógica fundante do pensamento científico. Entendemos como a ciência moderna nasceu. Nos séculos XVI e XVII, com Bacon e Descartes, a natureza deixou de ser vista como organismo vivo para se tornar matéria inerte a ser explorada. As metáforas de Francis Bacon sobre o método científico eram explicitamente baseadas nos julgamentos das “bruxas”. Bacon defendia o uso da violência, se preciso, para “penetrar os buracos e cantos” da natureza e “arrancar dela seus segredos”. A caça às bruxas como política econômica. Entre os séculos XIV e XVII, a caça às bruxas foi um terror muito bem organizado, que viabilizou o surgimento do próprio Direito, garantiu ao Estado recursos econômicos e domesticou as mulheres, buscando aniquilar a autonomia feminina e garantir a subordinação das mulheres à nova ordem vigente. Aprendemos o conceito de “donadecaseficação”. Maria Mies explica como as mulheres foram progressivamente expulsas da vida econômica ativa. Nas classes altas, tornaram-se “damas” confinadas ao lar. Nas classes trabalhadoras, foram empurradas para a dependência econômica total através do casamento e da criação da família nuclear. Vimos as duas faces da colonização. Enquanto mulheres europeias eram “civilizadas” através da domesticação, e isoladas no ambiente doméstico da família nuclear por meio da donadecaseficação, as mulheres nas colônias eram “naturalizadas”, ou seja, transformadas em “selvagens” para justificar a exploração. Embora qualitativamente diferentes, tanto as mulheres do Norte quanto as mulheres Sul global foram organizadas de moda a ampliar as possibilidades de pilhagem. Tangibilizamos o conceito de “Natureza Barata”. Ao posicionar mulheres na esfera doméstica “invisível” e povos colonizados como “selvagens”, o capitalismo criou reservatórios de trabalho não pago — verdadeiras “Naturezas Baratas”, disponíveis para apropriação infinita. A “liberdade” do trabalhador assalariado homem dependia estruturalmente da não-liberdade da dona de casa. Em outras palavras, a contraparte da Grande Proletarização foi a Grande Donadecaseficação. E chegamos a uma conclusão central para compreensão do nosso momento histórico: momentos de crise e transição epocal historicamente significam mais violência contra mulheres, pois a acumulação de bens, riquezas e poder dos homens sempre dependeu da destruição da autonomia feminina e exploração das mulheres. Uma análise que explica o aumento da violência e da perde de direitos que mulheres estão enfrentando, e que veremos com mais detalhes no quinto episódio. Sobre o podcast: O podcast Feminismo é luta de classes! é uma formação política feminista que objetiva contar a história das mulheres e abordar o feminismo sob uma perspectiva classista, de maneira a promover a consciência sobre a existência e condições materiais da classe sexual feminina para além do sistema capitalista e de forma interconectada com a crise climática e ambiental na qual vivemos. Ao longo dos 10 episódios, eu explico as origens da nossa crise multidimensional — em que os diversos indicadores sobre violência, f
Neste episódio, mergulhamos na transição histórica que consolidou o patriarcado como sistema de dominação estrutural. Das primeiras cidades-Estado da Mesopotâmia até o estabelecimento do monoteísmo judaico-cristão, traçamos como a subordinação feminina foi institucionalizada por meio do Estado, das leis e da religião. O Estado como máquina patriarcal Por volta de 2500 a.C., vemos as primeiras manifestações institucionais do patriarcado na Mesopotâmia. A formação dos Estados arcaicos marca não apenas a concentração de riquezas e o surgimento de classes, mas fundamentalmente a extensão da dominância masculina da família para toda a sociedade. O contrato patriarcal se revela em sua crueza: sustento econômico e proteção masculina em troca de subordinação total, servidão sexual e trabalho doméstico não remunerado das mulheres. Abdullah Öcalan sintetiza: “as mulheres são mantidas em uma colônia com fronteiras de difícil identificação”. O estabelecimento do patriarcado foi um processo de 2.500 anos (3100 a.C. a 600 a.C.), não linear, acontecendo em diversas regiões do globo de formas distintas. A dominação masculina não é uma ordem “natural desde os tempos imemoriais”, mas uma construção histórica mantida à base de violência física e psicológica. Patriarcado psicológico: a colonização da mente O patriarcado não é apenas um sistema econômico e cultural de subordinação feminina, mas também um patriarcado psicológico. Responsável por manter mulheres crentes em sua suposta inferioridade desde a infância, bem como emocionalmente dependentes da aprovação masculina. Essa dominação psicológica milenar explica a “cumplicidade” histórica de mulheres com o sistema que as subordina e sua participação na transmissão desse sistema às gerações seguintes. Öcalan afirma: “não é apenas a modernidade oficial, mas todo o sistema civilizatório hierárquico e estatista que se infiltrou no tecido social e aprisionou as mulheres física e mentalmente”. Origens da divisão sexual do trabalho: da cooperação à dominação No Paleolítico, a divisão sexual do trabalho tinha caráter funcional e cooperativo, não de dominação. Mulheres desenvolveram a primeira relação produtiva com a naturezapor meios da coleta e, posteriormente, da horticultura. Sua relação-objeto com a natureza era marcada por: * Reciprocidade: Mulheres concebiam a si mesmas e a natureza externa como produtivas e criativas * Não-dominação: A apropriação da natureza não estabelecia relação de dominação * Produção social: Como produtoras da vida, mulheres criavam relações sociais As mulheres inventaram os primeiros cultivos regulares de grãos e tubérculos, possibilitando pela primeira vez na história a produção e preservação de excedentes. A capacidade reprodutiva das mulheres não era vista como mera fertilidade animal, mas como práxis: ação + reflexão. Grupos de mulheres e crianças formaram as primeiras unidades de produção social e as primeiras relações sociais. Sociedades matricêntricas ou matrísticas caracterizavam o Paleolítico, em que o papel do homem na procriação era pouco compreendido. O paradigma da produção não-produtiva masculina Maria Mies identifica seis características fundamentais da relação-objeto dos homens com a natureza, distintas das mulheres: * Não-produtividade: As ferramentas dos caçadores não produzem nada novo, servindo basicamente para tirar a vida de seres não-humanos e coagir outros humanos. * Poder sobre outros seres: As armas conferem aos caçadores poder sobre outros seres, humanos ou não, possibilitando a apropriação tanto da produção de coleta quanto dos próprios produtores. * Relação predatória: É uma relação “antagônica e não recíproca”, mediada pelas armas, onde caçadores se apropriam da vida embora não possam produzi-la. * Dominação como paradigma: A dominação se tornou o principal paradigma da produtividade masculina - sem dominação e controle da natureza, os homens não podem conceber a si mesmos como produtivos. * Apropriação unilateral: A apropriação do natural p
Chegamos a um momento crucial da nossa formação política. Após traçarmos as condições sócio-históricas do Capitaloceno e entendermos a crise climática como expressão do esgotamento das relações de valor que sustentam a acumulação capitalista desde o século XVI, é hora de aprofundar uma análise fundamental: por que falamos de feminismo como luta de classes?
Neste terceiro capítulo, mergulhamos em uma análise histórica profunda para compreender a crise climática atual como expressão de uma crise muito maior: uma crise epocal do capitalismo. Mais do que um colapso ambiental isolado, o que vivemos é o esgotamento de um sistema que, por mais de 500 anos, organizou a vida na Terra sob a lógica da acumulação infinita.