Feminismo é luta de classes!

EP05: natureza-mulher-trabalho: a contradição fundamental

Feminismo é luta de classes!

Show Notes

Chegamos no penúltimo episódio (da primeira temporada?) do podcast Feminismo é luta de classes! Nos episódios anteriores, construímos o terreno analítico necessário para, finalmente, entrarmos na análise feminista sobre o nosso tempo presente. Antes de entrar efetivamente no tema deste episódio, vale recuperarmos a nossa linha-guia: partimos da crise climática não como um problema técnico a ser gerenciado pela “economia verde”, mas como expressão de uma crise multidimensional: a crise do Capitaloceno. Escapando da generalização confortável do “antropoceno”, vimos que não foi a humanidade — como um todo indiferenciado — que engendrou a realidade de múltiplas crises que enfrentamos. Foi o patriarcado capitalista como ecologia-mundo, que, desde 1492, passou a organizar as relações entre trabalho, (re)produção e natureza para possibilitar a acumulação infinita de capital. Vimos que a crise do clima é um dos sintomas do esgotamento das Naturezas Baratas — o femitariado, o proletariado e biotariado — que o sistema precisa explorar gratuita e infinitamente para geração de mais-valor. As mulheres sempre estiveram no centro dessa equação: não como vítimas passivas, mas como a classe superexplorada sobre cujos corpos e trabalho o patriarcado capitalista foi erguido. Rastrear as origens históricas dessa condição — da Mesopotâmia à Revolução Científica, da donadecaseficação à colonização — revelou que a hierarquia na divisão sexual do trabalho não é um dado natural, mas um paradigma social para benefício dos homens e sobre o qual se construiu a divisão internacional do trabalho. A violência contra as mulheres como estrutural e estruturante do nosso sistema-mundo Passando por uma ampla variedade de dados — que vão do feminicídio à escravidão moderna, passando pela perda de direitos legais a nível global — vimos que os números não descrevem uma série de tragédias individuais. Descrevem uma guerra de baixa intensidade permanente contra toda a classe sexual feminina. É uma violência estrutural que serve para manter as mulheres subordinadas por meio do medo e da coerção. Ela se intensifica exatamente no momento em que a Grande Fronteira se fecha e as possibilidades de extração de mais-valor do Femitariado diminuem. Portanto, as alterações climáticas não chegam a um terreno neutro — elas aterrissam sobre essa estrutura já existente e potencializam a vulnerabilidade de toda a classe sexual feminina dentro de uma estrutura de classe e raça já desigual. Os dados mostram que desastres climáticos ampliam a violência doméstica e sexual. Deslocamentos forçados colocam mulheres e meninas em situação de vulnerabilidade extrema. As próprias políticas climáticas que priorizam a financeirização da natureza e ignoram as comunidades locais recaem com mais força sobre as mulheres. Para entender por que essa violência persiste e se aprofunda, as explicações economicistas não bastam. Afirmar que as mulheres sofrem violência porque são economicamente dependentes dos homens é insuficiente: não explica a violência contra mulheres economicamente independentes, não explica a dominação masculina pré-capitalista e não enxerga a psicologia patriarcal da guerra de baixa intensidade contra toda a classe sexual feminina. Eu argumento que o nexo natureza-mulher-trabalho está — historicamente — no cerne da questão. As tarefas femininas de gestar, parir, alimentar, cuidar e reproduzir a vida foram classificadas como “atividade natural” e, portanto, excluídas da categoria trabalho. Isso não foi um acidente cultural. Foi uma condição material e histórica necessária para que os Grandes Homens — e, posteriormente, o capitalismo — acumulassem bens, riquezas e poder sem pagar a conta. As mulheres, ao mediarem os processos entre natureza e trabalho para geração de mais-valor, são tratadas como “recurso natural” — não apenas seu trabalho é apropriado, mas seu corpo, sua sexualidade e suas capacidades emocionais também o são. É aqui que entra uma distinção fundamental do ecofemini

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Dec 23, 2025

O episódio de hoje é um episódio especial e dá continuidade ao nosso estudo sobre o desenvolvimento da ciência moderna como instrumento do Mestre com um trecho do livro A Diferença Sexual na História, de María-Milagros Rivera Garretas, intitulado “Expressões da diferença de ser homem: a ciência e a técnica” (p. 109-208). Utilizando a vasta pesquisa de David Noble, que demonstra como a ciência foi uma empreitada clerical a partir do século XIII, Milagros argumenta que a ciência moderna se estabeleceu no entre-homens, celibatários e religiosos, excluindo as relações de diferença. Na verdade, como vimos, o verdadeiro objetivo da ciência é dominar a natureza e realizar em si a criação da vida sendo a ciência moderna, portanto, não apenas antimulher, como concluiu David Noble, mas também antimãe, como enfatiza a autora. Este é um dos meus trechos favoritos do livro porque, entre outras coisas, desbanca o mito de que a ciência sempre esteve em oposição à Igreja. Essa é uma mentira histórica que esconde vários fatos, entre eles a adoção da posição antiaborto da Igreja após a ciência concluir que o início da vida se dá na fecundação. Um plot twist que poucas conhecem. Também explica a saga permanente da ciência em suplantar a capacidade exclusiva das mulheres de criar a vida, um desejo masculino por poder e controle que se torna explícito a partir das transformações dos mitos de criação. No episódio, eu comento sobre o Clube de Estudo e Leitura Ecofeminista, o CELECO, no qual leremos, entre outras, a muito mencionada por aqui obra de Carolyn Merchant, A morte da natureza: mulheres, ecologia e a revolução científica. Confira todas as informações aqui. Outras referências citadas: David Noble, A World Without Women: The Christian Clerical Culture of Western Science. Nova York e Oxford: Oxford University Press, 1992. Marguerite Porete, El espejo de las almas simples. Barcelona: Icaria, 1995. [O espelho das Almas Simples e aniquiladas e que permanecem somente na vontade e no desejo do Amor. Petrópolis: Vozes, 2008]. Victor J. Seidler, Rediscovering Masculinity. Reason, Language and Sexuality. Londres: Routledge, 1989. Sobre o podcast: O podcast Feminismo é luta de classes! é uma formação política feminista que objetiva contar a história das mulheres e abordar o feminismo sob uma perspectiva classista, de maneira a promover a consciência sobre a existência e condições materiais da classe sexual feminina para além do sistema capitalista e de forma interconectada com a crise climática e ambiental na qual vivemos. Ao longo dos 10 episódios, eu explico as origens da nossa crise multidimensional — em que os diversos indicadores sobre violência, feminicídio e estupro, saúde mental, direitos legais, equidade econômica, entre outros — revelam uma piora nas condições de vida de mulheres e meninas em todo o mundo. Apenas uma perspectiva materialista histórica nos dá as ferramentas necessárias para compreensão e transformação desse cenário. Nas palavras da ecofeminista Ariel Salleh, “qualquer denominador comum entre a classe trabalhadora, mulheres, indígenas e política ecológica precisa ser uma política materialista”. As referências e o conteúdo completo estão na minha dissertação de mestrado, Crise climática e antropoceno: uma perspectiva ecofeminista para liberar a vida(2023), realizada na PUC-SP com bolsa da CAPES (Código de Financiamento 001 – 88887.608106/2021-00). O podcast Feminismo é luta de classe! foi viabilizado por meio de um financiamento coletivo com apoio de 164 pessoas! Se você não apoiou o financiamento coletivo, mas deseja colaborar agora, apoie o lado b clicando no botão abaixo. Você também pode colaborar, compartilhando o podcast nas redes e com pessoas amigas, e dando 5 estrelas no Spotify. Agradeço imensamente a cada uma e cada um que colaborou no financiamento coletivo com R$ 35 ou mais: Amanda Fernandes, María Agustina Comas, Alain Schraner, Alice Gabriela Santos Freire, Aline Nunes Kroth, Aline Moraes Alencar, Anna Mendes

Dec 2, 2025

Neste episódio, mergulhamos em uma análise histórica sobre como a subordinação das mulheres foi construída ao longo dos séculos — e a relação histórica intrínseca entre essa subordinação com a exploração natureza passando por um ponto chave da nossa análise: a Grande Donadecaseficação como contraparte da Grande Proletarização no início do capitalismo. Aqui, encerramos o longo episódio quatro. Vem comigo entender no detalhe como o capitalismo criou o Femitariado. Começando analisando brevemente a segunda raiz de pensamento do mundo ocidental. A ciência e filosofia gregas, que forneceram as bases conceituais para a terceira raiz de pensamento da sociedade ocidental: a ciência moderna. Aristóteles criou a justificativa “filosófica” da inferioridade feminina ao definir mulheres como “matéria passiva” e homens como o “princípio ativo” da criação abrindo caminhos para a futura consolidação do dualismo cartesiano como lógica fundante do pensamento científico. Entendemos como a ciência moderna nasceu. Nos séculos XVI e XVII, com Bacon e Descartes, a natureza deixou de ser vista como organismo vivo para se tornar matéria inerte a ser explorada. As metáforas de Francis Bacon sobre o método científico eram explicitamente baseadas nos julgamentos das “bruxas”. Bacon defendia o uso da violência, se preciso, para “penetrar os buracos e cantos” da natureza e “arrancar dela seus segredos”. A caça às bruxas como política econômica. Entre os séculos XIV e XVII, a caça às bruxas foi um terror muito bem organizado, que viabilizou o surgimento do próprio Direito, garantiu ao Estado recursos econômicos e domesticou as mulheres, buscando aniquilar a autonomia feminina e garantir a subordinação das mulheres à nova ordem vigente. Aprendemos o conceito de “donadecaseficação”. Maria Mies explica como as mulheres foram progressivamente expulsas da vida econômica ativa. Nas classes altas, tornaram-se “damas” confinadas ao lar. Nas classes trabalhadoras, foram empurradas para a dependência econômica total através do casamento e da criação da família nuclear. Vimos as duas faces da colonização. Enquanto mulheres europeias eram “civilizadas” através da domesticação, e isoladas no ambiente doméstico da família nuclear por meio da donadecaseficação, as mulheres nas colônias eram “naturalizadas”, ou seja, transformadas em “selvagens” para justificar a exploração. Embora qualitativamente diferentes, tanto as mulheres do Norte quanto as mulheres Sul global foram organizadas de moda a ampliar as possibilidades de pilhagem. Tangibilizamos o conceito de “Natureza Barata”. Ao posicionar mulheres na esfera doméstica “invisível” e povos colonizados como “selvagens”, o capitalismo criou reservatórios de trabalho não pago — verdadeiras “Naturezas Baratas”, disponíveis para apropriação infinita. A “liberdade” do trabalhador assalariado homem dependia estruturalmente da não-liberdade da dona de casa. Em outras palavras, a contraparte da Grande Proletarização foi a Grande Donadecaseficação. E chegamos a uma conclusão central para compreensão do nosso momento histórico: momentos de crise e transição epocal historicamente significam mais violência contra mulheres, pois a acumulação de bens, riquezas e poder dos homens sempre dependeu da destruição da autonomia feminina e exploração das mulheres. Uma análise que explica o aumento da violência e da perde de direitos que mulheres estão enfrentando, e que veremos com mais detalhes no quinto episódio. Sobre o podcast: O podcast Feminismo é luta de classes! é uma formação política feminista que objetiva contar a história das mulheres e abordar o feminismo sob uma perspectiva classista, de maneira a promover a consciência sobre a existência e condições materiais da classe sexual feminina para além do sistema capitalista e de forma interconectada com a crise climática e ambiental na qual vivemos. Ao longo dos 10 episódios, eu explico as origens da nossa crise multidimensional — em que os diversos indicadores sobre violência, f

Oct 21, 2025

Neste episódio, mergulhamos na transição histórica que consolidou o patriarcado como sistema de dominação estrutural. Das primeiras cidades-Estado da Mesopotâmia até o estabelecimento do monoteísmo judaico-cristão, traçamos como a subordinação feminina foi institucionalizada por meio do Estado, das leis e da religião. O Estado como máquina patriarcal Por volta de 2500 a.C., vemos as primeiras manifestações institucionais do patriarcado na Mesopotâmia. A formação dos Estados arcaicos marca não apenas a concentração de riquezas e o surgimento de classes, mas fundamentalmente a extensão da dominância masculina da família para toda a sociedade. O contrato patriarcal se revela em sua crueza: sustento econômico e proteção masculina em troca de subordinação total, servidão sexual e trabalho doméstico não remunerado das mulheres. Abdullah Öcalan sintetiza: “as mulheres são mantidas em uma colônia com fronteiras de difícil identificação”. O estabelecimento do patriarcado foi um processo de 2.500 anos (3100 a.C. a 600 a.C.), não linear, acontecendo em diversas regiões do globo de formas distintas. A dominação masculina não é uma ordem “natural desde os tempos imemoriais”, mas uma construção histórica mantida à base de violência física e psicológica. Patriarcado psicológico: a colonização da mente O patriarcado não é apenas um sistema econômico e cultural de subordinação feminina, mas também um patriarcado psicológico. Responsável por manter mulheres crentes em sua suposta inferioridade desde a infância, bem como emocionalmente dependentes da aprovação masculina. Essa dominação psicológica milenar explica a “cumplicidade” histórica de mulheres com o sistema que as subordina e sua participação na transmissão desse sistema às gerações seguintes. Öcalan afirma: “não é apenas a modernidade oficial, mas todo o sistema civilizatório hierárquico e estatista que se infiltrou no tecido social e aprisionou as mulheres física e mentalmente”. Origens da divisão sexual do trabalho: da cooperação à dominação No Paleolítico, a divisão sexual do trabalho tinha caráter funcional e cooperativo, não de dominação. Mulheres desenvolveram a primeira relação produtiva com a naturezapor meios da coleta e, posteriormente, da horticultura. Sua relação-objeto com a natureza era marcada por: * Reciprocidade: Mulheres concebiam a si mesmas e a natureza externa como produtivas e criativas * Não-dominação: A apropriação da natureza não estabelecia relação de dominação * Produção social: Como produtoras da vida, mulheres criavam relações sociais As mulheres inventaram os primeiros cultivos regulares de grãos e tubérculos, possibilitando pela primeira vez na história a produção e preservação de excedentes. A capacidade reprodutiva das mulheres não era vista como mera fertilidade animal, mas como práxis: ação + reflexão. Grupos de mulheres e crianças formaram as primeiras unidades de produção social e as primeiras relações sociais. Sociedades matricêntricas ou matrísticas caracterizavam o Paleolítico, em que o papel do homem na procriação era pouco compreendido. O paradigma da produção não-produtiva masculina Maria Mies identifica seis características fundamentais da relação-objeto dos homens com a natureza, distintas das mulheres: * Não-produtividade: As ferramentas dos caçadores não produzem nada novo, servindo basicamente para tirar a vida de seres não-humanos e coagir outros humanos. * Poder sobre outros seres: As armas conferem aos caçadores poder sobre outros seres, humanos ou não, possibilitando a apropriação tanto da produção de coleta quanto dos próprios produtores. * Relação predatória: É uma relação “antagônica e não recíproca”, mediada pelas armas, onde caçadores se apropriam da vida embora não possam produzi-la. * Dominação como paradigma: A dominação se tornou o principal paradigma da produtividade masculina - sem dominação e controle da natureza, os homens não podem conceber a si mesmos como produtivos. * Apropriação unilateral: A apropriação do natural p

Oct 21, 2025

Chegamos a um momento crucial da nossa formação política. Após traçarmos as condições sócio-históricas do Capitaloceno e entendermos a crise climática como expressão do esgotamento das relações de valor que sustentam a acumulação capitalista desde o século XVI, é hora de aprofundar uma análise fundamental: por que falamos de feminismo como luta de classes?

Jun 8, 2025

Neste terceiro capítulo, mergulhamos em uma análise histórica profunda para compreender a crise climática atual como expressão de uma crise muito maior: uma crise epocal do capitalismo. Mais do que um colapso ambiental isolado, o que vivemos é o esgotamento de um sistema que, por mais de 500 anos, organizou a vida na Terra sob a lógica da acumulação infinita.

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